Uma visão geral da cultura da ostentação
A Cultura da Ostentação em São Paulo e o Funk
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Nicola, A.D.[@mcdaniell]. (2023, 19 de novembro). Doce ironia quando alguém tenta te derrubar e acaba de cara no chão, que Deus me blinde de todo mal olhado (...). [Fotografia]. Instagram. https://www.instagram.com/p/Cz2KcDCMSfT/?img_index=1 |
Neste trabalho, em geral, quis abordar diversas dimensões sociais, culturais e econômicas. Além disso, ao decorrer do meu processo de pesquisa, me deparei com assuntos distintos, como o Funk, o consumo como forma de ostentação e a moda nas favelas paulistas.
O consumo de grifes nas periferias vem como forma de existência, resistência, pertencimento, capacidade adentrar no mercado de consumo e alcance de oportunidades, o que é muito palpável para os “playboys” ou "boys"- pessoas com maior poder aquisitivo - e, não como muitos pensam, equivocadamente, de ser um ato de falsa mobilidade social.
O funk vem como porta-voz das favelas, como forma de crítica política, social e econômica. Este gênero musical transmite, quase sempre, a realidade e é um dos constituintes importantíssimos de ócio nas periferias - e, cada vez mais, no resto do Brasil e no mundo.
É importante ter em conta as diferentes vertentes do Funk, onde, cada uma tem uma mensagem específica para passar. Como exemplo, cito o Funk Consciente, que vem, sobretudo, com mensagens de superação e com o objetivo de conscientizar, ilustrar diferentes problemas sociais e como forma de expressão dos favelados, que são oprimidos e silenciados pelo Estado, pelas elites e pela sociedade em geral. Devido à marginalização histórica dos Mcs, - por fazerem parte de um estrato social mais baixo - são vistos, com frequência, como delinquentes e acusados de apologia ao crime e ao consumo de drogas ilícitas. Estes, desenvolvem um importante papel pois, se posicionam contra o sistema político, social e econômico do Brasil. Além disso, enfatizam a opressão sofrida nas favelas pelas operações policiais, que desde 2012, já foi observada pelo antropólogo Alexandre Barbosa Pereira, que presenciou a atitude agressiva dos policiais, em um baile funk, usando “bombas de gás lacrimogêneo e sprays de pimenta” (Pereira, 2014. p.3).
A expressão “favela venceu” é um dos slogans, usado com frequência pelos moradores das favelas de São Paulo e a superação está no pódio da mensagem passada. A fé em Deus, a lealdade, o sonho da melhora de vida - para si e para a família, sobretudo para suas mães - e a descrição da trajetória de sufoco dos Mcs, são características quase que indispensáveis do Funk Consciente.
Cito três exemplos de Funks Conscientes, que abordam problemas estruturais do Brasil, como a violência doméstica, o vício, mas também, uma história de superação, respectivamente, deixando mensagens importantes para a sociedade:
“Ontem à noite foi chute, foi soco, foi choro pela casa toda
Entre lesões e escoriações eu não vejo motivo pra tanta humilhação
Eu da minha posição não desejo isso aqui pra nenhuma pessoa
Quanto rancor eu guardei por ter que acompanhar essa situação
Vi meu herói se tornando vilão
Vi minha coroa [mãe] jogada no chão
Cena de filme não traz a imagem daquela lembrança no meu coração
Encher a cara parecia uma boa ideia
Mas de recordação só me deixou mágoa, né
De quantos vizinhos assistindo na plateia
A tradição dizia pra ninguém meter a colher
Mas isso salva uma mulher.”
(MC Hariel)
“E aí menor, dá um breque, tá chegando agora, fuma não
Não é conselho, é visão
‘Cê se perde na neblina, fecha a cara
Muda o clima de sujeito bom p'ra malandrão
Ai não!
Há muito tempo que eu 'tô' nisso, não é moda essa porra é vício
Por vezes, olhos vermelhos, fez minha velha chorar
Hoje eu canto, conscientizo, moleque pense bem nisso
Se me vê como espelho, que seja só no cantar
Vou cantar!
Girei o globo, fui na terra dos 'boy
E vi que eles faz fumaça igual favela
Mas a parcela de bandido cai pra nós
E que se foda os falador, sou mais a nossa atmosfera.”
(Mc Neguinho do Kaxeta)
“Passando 'mó' [muito] sufoco
Parado, pobre louco
A marmita era 15
Não tinha 1 real no bolso
(...)
Louca vida, louca [2x]
Os 'menó' [crianças] sem opção
Solução é ir pra boca [tráfico]
Eu fui diferente
O Lelê era mente
Se espelhava no Kaxeta
No funk linha de frente
O jogo virou
Deus abençoou
Todos têm o livre arbítrio
Eu escolhi ser cantor.”
(Mc Lele JP e Mc Neguinho do Kaxeta)
Estava no transporte público e ouvi uma conversa de três meninos entre 12 e 13 anos, que estavam falando sobre os presentes que iriam ganhar no natal. O que me chamou atenção na conversa foi quando um deles, o mais velho, comentou que os presentes de suas irmãs rodavam os 50€ e o dele, somando todos que ia ganhar, passavam dos 500€. Após esse comentário, o outro colega comentou que iria ganhar um Nike Jordan (um calçado relativamente caro e bem conhecido).
A partir desta conversa, constatei, em primeira mão, a inversão dos valores dos presentes. O caráter simbólico é totalmente excluído do objetivo pelo qual é oferecido o objeto e, o valor monetário, que traz status e poder, contam mais na balança da nova geração de consumidores.
A ostentação e consumo de grifes são meios, SIM, pelos quais as pessoas das periferias chegam, ainda que simbolicamente, aos lugares que são excluídas e que a ELITE dominante determina como não pertencentes.
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Nicola, A.D.[@mcdaniell]. (2023, 17 de outubro). Superação, não ostentação, já fui tirado de mc lixo, pobre, sem talento, vim de baixo igual vários vem (...). [Fotografia]. Instagram. https://www.instagram.com/p/Cyg8PHYPDMU/?img_index=2 |
Referências:
GR6 EXPLODE. (2021, 26 de agosto). 180 - Alok, DJ Victor, MC Hariel, MC Marks, MC Davi, MC Leozinho ZS e MC Dricka (GR6 Explode). [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=LhV_q499nGA
GR6 EXPLODE. (2016, 04 de julho). MC Neguinho do Kaxeta - Não é Conselho é Visão (Video Clipe) Jorgin Deejhay. [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=pPEoQNqBSSY
GR6 EXPLODE. (2020, 19 de janeiro). MC Lele JP e MC Neguinho do Kaxeta - Sou Vitorioso (GR6 Explode) DJ Pedro. [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=pPLUiBL8hDc
Pereira, A. B. (2014). Funk ostentação em São Paulo: imaginação, consumo e novas tecnologias da informação e da comunicação. Revista Estudos Culturais, (1), 1-18. https://www.revistas.usp.br/revistaec/article/view/98367/97104


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